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Como o pensamento tribal destruiu o liberalismo americano

Como o pensamento tribal destruiu o liberalismo americano

O liberalismo é uma doutrina com um longo histórico de conquistas, um legado extremamente positivo para a humanidade, e que está intrinsecamente ligada ao sucesso do experimento americano. Os “pais fundadores” foram bastante influenciados pelo pensamento liberal. Mas, de uns tempos para cá, o liberalismo foi usurpado por uma agenda radical esquerdista, transformando-se em algo bem diferente do que já foi, e se fechando como uma concha para novas ideias ou, pior ainda, para o debate de novas ideias.

Quem quiser entender melhor o fenômeno deve ler The Closing of the Liberal Mind, de Kim R. Holmes, que disseca essa trajetória de como o pensamento de grupo e a intolerância passaram a definir a esquerda moderna, que se diz liberal. O autor mostra que de liberal essa postura não tem nada, que é justamente o seu oposto, um movimento antiliberal, que não guarda mais similaridade alguma com o liberalismo do passado, apesar de usar o mesmo termo.

Quando se fala em intolerância, a maioria imagina um racista perseguindo um negro ou um homofóbico atacando um gay, talvez um machista agredindo uma mulher, mas raramente se lembra que a intolerância existe em diferentes formatos e tamanhos, dos dois lados do espectro ideológico. Sempre que alguém faz uso da coerção estatal ou da intimidação, por meio de rituais públicos que restringem o debate ou eliminam os oponentes da arena política, isso significa intolerância.

Aqueles que se intitulam “liberais progressistas” lideram grupos que calam os debates nas universidades e restringem a liberdade de expressão

E é inegável que a esquerda “liberal”, hoje, responde por boa parte desses episódios. Lamentavelmente, diz o autor, o tipo de liberalismo que era conhecido dos americanos está desaparecendo no país. Com muita frequência, aqueles que se intitulam “liberais progressistas” lideram grupos que calam os debates nas universidades e restringem a liberdade de expressão. Eles alegam defender a ciência, mas demonizam cientistas que ousam divergir uma vírgula da histeria presente na tese do aquecimento global. Condenam os preconceituosos, mas detonam os cristãos como se fossem um bando de ignorantes supersticiosos.

O que chamamos de liberal hoje, no cenário americano, não é de forma alguma o liberal histórico, e sim um social-democrata defensor de um Estado grande e controlador, que usa a noção antiga de liberdade individual apenas quando é conveniente, como quando é para defender o “direito de escolha” da mulher no caso do aborto (ignorando o direito do bebê), ou para criticar o militarismo estatal na política de segurança. Mas, via de regra, essa turma considera a liberdade individual e de consciência como obstáculo na construção de seu maravilhoso welfare State.

Esses “liberais” beberam de fontes filosóficas pós-modernas, adotando o relativismo moral como princípio, além da crença de que tudo é poder, construção social, e não existe mais o certo e o errado, o conhecimento objetivo. Claro que tal relativismo exacerbado é inconsistente, e por isso precisa de um duplo padrão, da velha hipocrisia para sobreviver. Os relativistas julgam todas as culturas como equivalentes, por exemplo, mas isso só serve na hora de defender as piores práticas dos outros, jamais para poupar de ataques violentos a própria cultura ocidental.

Quando esse relativismo se junta ao igualitarismo radical, o resultado é uma agenda cultural de esquerda com foco nas políticas sexuais e de identidade, ou o multiculturalismo. Tais causas viraram as principais bandeiras políticas do Partido Democrata hoje, o que comprova a radicalização da esquerda americana. O ex-presidente Obama era um ícone desse pensamento, e não se importava em dizer que pretendia mudar fundamentalmente a América. Era um bom discípulo de Saul Alinsky, autor de um manual revolucionário para radicais.

Do mesmo autor:A liberdade de expressão ameaçada (9 de fevereiro de 2017) 

Leia também:A luta de um confeiteiro pela liberdade interessa a todos (artigo de Andreas Thonhauser, publicado em 22 de agosto de 2017)

Mesmo com a derrota de Hillary Clinton para Donald Trump em 2016, o fato é que esses radicais venceram até agora a guerra cultural, e boa parte de sua agenda se tornou predominante hoje. Cada vez temos mais exemplos da intolerância “progressista”, da ditadura do politicamente correto, com funcionários sendo demitidos por simplesmente emitirem uma opinião sobre a importância da biologia na diferença dos sexos, ou por pequenos empresários punidos legalmente por se recusarem a ir contra suas mais valiosas crenças religiosas para atender aos caprichos das “minorias”.

Um dos segredos do sucesso liberal sempre foi sua flexibilidade, sua abertura ao novo, sua capacidade de mudança. Mas essa razão de força foi usada também para enfraquecê-lo e, uma vez conquistado o poder pelas “minorias”, elas querem agora inviabilizar qualquer mudança, qualquer debate aberto, qualquer questionamento. O liberalismo serviu para que esses “progressistas” alcançassem esse destaque todo e, agora que estão no topo, querem chutar a escada, fechar a porta. O pluralismo foi bom até aqui; agora a esquerda pode muito bem viver sem ele. Os “hereges” dissidentes que se recusam a rezar pela nova cartilha devem ser eliminados, impedidos de falar. Nunca os “fracos e oprimidos” tiveram tanta força e poder como na era da “marcha das minorias” e da “revolução das vítimas”.

Nossas convicções:Liberdade de expressão

Como Holmes lembra, o liberalismo é racional, enquanto a esquerda pós-moderna é irracional. O liberalismo é empírico, acreditando em fatos objetivos; a esquerda pós-moderna é radicalmente subjetiva, argumentando que toda a verdade é meramente uma questão de interpretação. O liberalismo está totalmente comprometido com a ciência e com o método científico de pesquisa empírica rigorosa; a esquerda pós-moderna em alguns casos trata o método científico como mera ficção, enquanto em outros o usa de forma enganosa e oportunista para avançar uma agenda política.

Os “liberais progressistas” de hoje declararam guerra aos valores tradicionais da América, inclusive ao liberalismo clássico. O indivíduo desapareceu da equação, sendo substituído por grupos coletivistas. A conclusão é inescapável: a intolerância está em alta, mas não por alguma ameaça fascista à direita, e sim por seu crescimento agressivo dentro do movimento progressista moderno. Churchill alertou que os fascistas do futuro iriam se chamar de antifascistas. E não é exatamente o que vemos hoje?

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.

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